Rumo à ação
Cientistas têm conseguido desvendar os complexos aspectos neurológicos do desenvolvimento comportamental, processo que se inicia muito cedo e requer estimulação constante; fase de grandes descobertas para as crianças e de muito cuidado para os pais
por luiz celso pereira vilanova
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ATLAS DO COMPORTAMENTO
O psicólogo americano Arnold Gesell (1880-1961) foi grande estudioso do movimento corporal, para ele reflexo do estado psíquico. As imagens ocuparam grande espaço em sua obra, sob a forma de fotografias ou filmes dos comportamentos infantis |
Os estudos sobre o desenvolvimento infantil já têm cerca de 80 anos. Eles se iniciaram na década de 20, com o psicólogo americano Arnold Gesell, que procurou descrever o desenvolvimento da criança de 1 mês até 6 anos de idade. Na década de 30, o psicólogo e biólogo suíço Jean Piaget investigou o desenvolvimento e sua relação com a aprendizagem. Mais tarde, já nos anos 50, os estudos passaram a ter enfoque mais médico.
No Brasil, o professor Antonio Frederico Branco Lefèvre padronizou o exame neurológico do recém-nascido a termo, caracterizando o comportamento e as reações dos neonatos normais. Já em 1952, o neurologista francês André-Thomas e seus discípulos descreveram comparativamente o padrão neurológico do recém-nascido a termo e pré-termo. As pesquisas prosseguiram até que, no final da década de 70 e principalmente no início da década de 80, os trabalhos que enfocam o desenvolvimento do recém-nascido prematuro, em especial os de peso muito baixo, passaram a ser realizados por equipes multidisciplinares.
Essas informações preliminares permitem concluir que de início o enfoque dessa investigação foi mais restrito. Nas últimas décadas, porém, tornou-se mais abrangente e acabou por envolver uma série de avaliações interdisciplinares. Com esse cenário pôde-se então delinear melhor tanto o comportamento do recém-nascido como o do lactente e suas reações diante de estímulos de naturezas diversas. Essa análise mais global do desenvolvimento infantil trouxe a necessidade de revisão da terminologia até então empregada, levando-se em conta os novos conceitos e conhecimentos determinados por essas pesquisas.
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EXPLORAÇÃO DO MUNDO
Na época do nascimento as capacidades motoras básicas já estão presentes. O que os bebês precisam para desenvolvê-las é de estímulos constantes, de um ambiente seguro e da proteção afetiva e cuidadosa dos adultos que os cercam |
O início de tudo
O primeiro tipo de movimentação a surgir na escala animal, e também o primeiro a aparecer na vida intra-uterina, é o movimento reflexo. É uma forma de movimentação mais simples, desencadeada por determinado estímulo. Apesar de ser o mais primitivo, ele é essencial para a movimentação durante toda a vida do indivíduo. Essa forma de movimentação é organizada pelo arco reflexo e é sempre um padrão de estímulo: desde que suficientemente forte para ultrapassar determinado limiar, vai desencadear o mesmo padrão de movimento. A partir do sexto para o sétimo mês de vida intra-uterina, começam a surgir padrões de movimentação mais complexos, dos quais participam necessariamente de áreas cerebrais. Essa forma de movimentação, denominada reflexo arcaico ou automatismo inato, desaparecerá após o nascimento em razão da inibição realizada por estruturas do sistema nervoso central mais recentes, do ponto de vista evolutivo, em especial as do sistema extrapiramidal, localizadas na região subcortical. Com isso, padrões mais primitivos darão lugar a automatismos adquiridos, relacionados a reações posturais e de locomoção, determinados por padrões biológicos característicos de cada espécie.
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COMUNICAÇÃO CELULAR
Por volta dos dois últimos meses gestacionais e, depois, entre 6 meses e dois anos de idade, ocorrem picos de desenvolvimento dos processos de comunicação neuronal. Há aumento significativo dos prolongamentos dos neurônios, que favorece a propagação do impulso nervoso de uma célula a outra, as sinapses. Resultado: aumento do volume cerebral e novas capacidades motoras e perceptivas, entre outras. Ao lado, micrografia de uma sinapse cortical |
Portanto, a criança desenvolverá habilidades ou comportamentos aprendidos, isto é, os atos práxicos (ou voluntários). Entretanto, ao contrário das outras etapas do desenvolvimento, esta depende não apenas do componente biológico mas das vivências ou experiências da criança. O componente biológico sofrerá modulação pelos estímulos externos, as células cerebrais poderão modificar-se, diminuindo ou aumentando o número de conexões com as células subjacentes. Apesar de o indivíduo já nascer com o número total de células do sistema nervoso central, a maior parte das sinapses neocorticais ocorrerá após o nascimento. Dessa forma, o processo de formação de sinapses (ou sinaptogênese) depende não somente do componente biológico mas de estímulos externos. A modulação cerebral pela experiência, um tipo particular de plasticidade cerebral, que é um fenômeno mais amplo, é responsável tanto pelos processos mais básicos (a adaptação, por exemplo) como pelos mais complexos (caso da aprendizagem).
Rumo à ação
Cientistas têm conseguido desvendar os complexos aspectos neurológicos do desenvolvimento comportamental, processo que se inicia muito cedo e requer estimulação constante; fase de grandes descobertas para as crianças e de muito cuidado para os pais
por luiz celso pereira vilanova
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PIONEIRO NA NEUROPEDIATRIA
O neurologista paulista Antonio Frederico Branco Lefèvre (1916-1981), fundador da Associação Brasileira de Neurologia em 1967, formouse pela Faculdade de Medicina da USP em 1941. Em 1944 acompanhou um curso de psicologia ministrado pelo professor francês André Ombredane, psicólogo e autor de uma obra de referência para a neuropsicologia, publicada em 1939. De volta a São Paulo, Lefèvre dedicou-se com especial atenção às patologias neuropsiquiátricas em crianças. Empenhou-se em desenvolver um modelo de atendimento neurológico específico para essa população, pois, na época, os diagnósticos eram baseados na fenomenologia e em estudos predominantemente clínicos, e os exames de difícil aplicação nas crianças |
Assim, é fácil entendermos por que, apesar de a criança normal nos primeiros meses de vida apresentar desenvolvimento neurológico regido basicamente por um programa biológico, com pouca interferência de estímulos externos, estes serão fundamentais para realizar um processo silencioso naquele momento, o de modulação cerebral. Assim, para a criança alcançar todo seu potencial relativo aos processos de aprendizagem, é necessário e fundamental que ela, já desde as primeiras semanas de vida, possa ter experiências somestésicas (ou seja, relativas ao tato e à temperatura), sensoriais e motoras adequadas, ao realizar movimentos, manipular objetos e interagir com adultos para ir ajustando seu controle postural e de tônus. E para que, posteriormente, ao desenvolver maior número de possibilidades sinápticas, possa ter memória e aprendizagem mais eficientes.
Dois modelos em discussão
Identificamos duas teorias sobre o desenvolvimento da criança: a neuromaturacional e a dos sistemas dinâmicos. A teoria neuromaturacional pressupõe uma seqüência e um ritmo de desenvolvimento determinados por um componente fortemente biológico, endógeno, com pouca interferência do ambiente. Segundo esse modelo, o desenvolvimento seria dependente de uma hierarquia vertical, na qual um centro superior comanda, planeja e delega o programa motor para os centros subordinados o executarem. Estes, no entanto, não estariam prontos no nascimento e estariam em condições de funcionar apenas com o passar dos meses, o que explicaria a mudança no comportamento motor ao longo da vida. Assim, os bebês não precisariam aprender habilidades motoras básicas, como agarrar, sentar, engatinhar e segurar objetos.
Ainda segundo essa teoria, as crianças normais desenvolveriam as mesmas habilidades em ordem idêntica porque são constitucionalmente semelhantes e apresentariam necessidades parecidas. Entre os médicos é bem aceito que o recém-nascido normal seja capaz de ouvir e ver. O neonato é capaz de reagir com respostas motoras globais (startles) para sons altos e movimentos corporais em direção à fonte sonora até onde seu controle motor permitir. O padrão de estímulo sonoro é importante para a obtenção ou não das respostas. Os estímulos de freqüência mais alta e de maior duração, chocalhos e a fala humana são extremamente mais efetivos para desencadear a resposta do movimento de procura com a cabeça. Já o segundo modelo, conhecido como teoria de sistemas dinâmicos, valoriza a inter-relação entre a maturação neurológica e as experiências oriundas do ambiente diverso, modificado pelo estilo de educação, diferenças em relação ao sexo, reforço e facilitadores sociais etc.
COMPORTAMENTOS REFLEXOS DO RECÉM-NASCIDO |
As reações inatas automáticas são de grande importância na estimulação do desenvolvimento inicial do sistema nervoso central e dos músculos, além de ponto de partida para a organização da consciência do bebê, que, de início, é corporal. Tais reflexos são controlados pelos centros cerebrais inferiores – áreas cerebrais mais mielinizadas durante o nascimento. Eles têm basicamente três funções: recapitular a filogênese e garantir a sobrevivência e a autonomia por meio de adaptações aos movimentos voluntários. Os bebês humanos possuem 27 dos principais reflexos já na época do nascimento e nos primeiros dias de vida: entre eles, os primitivos (relativos à necessidade primitiva de sobrevivência e proteção, que remontam à evolução da humanidade), os posturais (relativos às mudanças de posição, relacionados ao equilíbrio e que podem ser incorporados mais tarde a outros movimentos) e os locomotores (ver alguns deles no quadro abaixo).
Grande parte desses reflexos desaparecem entre 6 meses e 1 ano, mantendo-se apenas aqueles relativos à proteção, como bocejar, espirrar, engasgar etc. O desempenho neurológico dos bebês pode aliás ser avaliado pelo desaparecimento desses reflexos, que se tornam desnecessários no tempo previsto – indicativo de que as áreas motoras do córtex foram parcialmente mielinizadas, dando abertura para as reações voluntárias.

Fontes: A criança em desenvolvimento, H. Bee, Harper & Row, 1984, págs. 67-68; Desenvolvimento humano, D. E. Papalia et al., Artmed, 2006, págs. 171-172 FOTOS : BSIP /Keystone (moro e sucção), Science Faction/Getty Im ages (preensão) e iStockphoto (marcha) |
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autor |
LUIZ CELSO PEREIRA VILANOVA
é neuropediatra, professor adjunto- doutor e chefe do Setor de Neurologia Infantil da Unifesp, neurologista da Derdic (PUC - SP ) e co-autor de Desenvolvimento auditivo de crianças normais e de alto risco (Plexus, 1995) e O desenvolvimento do comportamento da criança no primeiro ano de vida (Casa do Psicólogo, 1998).
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Fonte: http://www.vivermentecerebro.com.br |